sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Previsão do tempo


Caminhava na madrugada, como se buscasse naquela solidão algo que o redimisse de tantos enganos. Tomou por cúmplice a lua, que o seguia discreta e pacientemente, como se fora ele o único notívago errante e dependente de alguma luz emprestada.
Havia sido um dia seco, envolvendo a umidade relativa daquele homem aflito. Havia sido um dia longo, da mais espessa quietude, entrecortada por pancadas de pensamento. Horas atrás, no jornal, um mapa de áreas claras anunciava, mais uma vez, tardes ensolaradas e noites quentes.
Lembrou-se e esboçou um sorriso vago, enquanto sentia a força do vento e suspirava denso em busca de algum alívio. Naquela cidade agreste, mais previsível que o tempo só mesmo os rumos daquele jovem que encontrou na inércia sua aparente felicidade.
De repente, as nuvens moveram-se com velocidade e, já sem nenhuma proteção, viu-se debaixo de um céu inesperado, que desabava em águas ligeiras e indomáveis.
_ Dessa vez você errou!? - de uma marquise, ironizou um velho que se escondia do temporal.
_ Meu melhor erro! Disse o jovem àquele senhor, quando entendeu o que é que lhe fazia tão seco.
Continuou lento pela rua, enxergando em cada passo um pedaço da própria cartografia. Olhou, ainda, para as mãos molhadas e não quis compreender nenhuma das linhas que nelas havia, já que de previsões - confessou - ele nada entendia.
E foi assim que o homem do tempo perdeu o medo da chuva.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Do altar em pedaços desceu uma santa

Deus, então, atendeu suas preces. Em meio à homilia, num raio rompeu o local consagrado e, do altar em pedaços, desceu uma santa. Ela habitou entre os homens com hábitos de estátua, intacta em seus tantos dogmas, como se fora aço o que carregava entre as vestes e gesso ainda tivesse em vez de sangue.
A santa dos gestos de mármore andava coesa e serena, seus passos de divindade. Mas no semblante - mal sabia - já trazia mil faces. Havia quem lhe enxergasse acalanto e quem nesses mesmos olhos previsse desastres. Se antes a santa vestia seu manto e tinha por sina operar milagres, qual não foi o espanto quando se viu entre humanos embates.
Assim, descobriu que, fora do altar, sua missão era outra. Era contradição. Já não carregaria seu fardo de bondade. Suntuosa, seria mulher. Uma nova vida, ainda não desenhada; um destino incerto, de virtudes e pecados. Sorriu, feliz, sem nem perceber que é mais fácil ser santa que ser mulher.
Toda santa é canônica e jamais duvida do que quer. Do alto imóvel da santidade, não se ressentem dos próprios rastros nem precisam dosar na vida uma medida exata de maldade. Mas aí já era tarde. Não que algo a impedisse de voltar a ser celeste, mas, sendo mulher por um dia, jamais caberia novamente naquele altar ausente de vontade.

sábado, 24 de dezembro de 2011

As flores que ganhei...

As flores que ganhei pesariam o percurso e talvez as decisões. Levei para casa apenas o cartão sem nome, onde qualquer outra pessoa poderia ler minha insensatez. Mas sempre tive essa habilidade de optar pelo pior. Feito Clarice, sinto inexplicável apreço por tudo que se arrasta desajeitadamente e, pontiagudo, fere querendo afagar. Nos poemas que leio, vejo-me pálida e castanha; parte apagada da viagem, uma miragem que ganha vida para repetidas vezes morrer. A quanta sinceridade pode um encanto resistir, eu não sei. Tampouco se tudo isso é disfarce, já que ainda lembro da silenciosa intensidade. Por hora, quero alguém que me abrace sem alertas e repetições. Quero ir embora em qualquer desses vagões, marcar um café para as três da tarde e me esquecer que já é fim de dezembro. Talvez ainda haja tempo de salvar as rosas e nelas descobrir tranquilidade.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Os lados

_ Eu não entendo você.
_ Responde. Antes de atravessar a rua, você olha para os dois lados?
_ O que tem isso a ver?
_ Olha, não olha?

Ele, já impaciente, sentia vontade de desistir. Marília tinha sempre aquela expressão deserta e a fala que lhe soava incerta. Mas precisava, enfim, de uma resposta para aquela história que há muito o incomodava.

_ Olho sim. E daí, o que tem a ver? Eu acabo de dizer tanto, te confesso sentimentos engasgados e tudo que você fala é isso? Eu olho sim para os dois lados! O que...

Delicadamente, a moça tocou-lhe a face com o dorso da mão e assim paralisou as palavras. Sem que pudesse controlar a reação, ele fechou os olhos e recebeu aquele carinho como se fora uma força mágica capaz de garantir a eternidade. Demorou cerca de dez segundos até que ela cessasse o afago e passasse a apenas observá-lo. Ele manteve os olhos cerrados por mais um pequeno instante. E foi como se acordasse de um longo sono encantado, quando abriu os olhos e percebeu que Marília o encarava com a mesma expressão de sempre.

 _ Pois, então, faça-o também ao cruzar as vidas que se avizinham a sua. O perigo pode ser bem maior.

Depois de dizer, Marília esboçou um sorriso que tinha em si algo de muito triste. Virou as costas e caminhou passos tranquilos afastando-se dele, que permaneceu parado. Olhava nessa perspectiva de quem fica. E parecia impossível compreender. A menina andava torta, pendendo na sua vagarosa indecisão entre a sombra ou o lado mais bonito da estrada. Ele ainda observava de longe, quando ela atravessou a rua sem olhar para lado nenhum.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Em vão


Às vezes é preciso voar para enfim perceber que a caminhada não vale o cansaço. Tirar os pés do chão, aposentar a razão, elevar às nuvens a mente e desobedecer as ordens do tempo tem jeito de encanto, mas pode também revelar armadilhas bem preparadas. O descompasso do rio, feito de intermitências, rasuras, profundidades e o engano das palavras. Poesia é sentimento, mas sentimento não é só poesia. Entre o que se diz e o que se sente há um abismo, o mesmo vão presente nas coisas distintas que fingem ser uma só.
E aí é preciso também conversar com a tristeza, que tem o olhar treinado para enxergar na escuridão. Para além de sorrisos e afagos que falseiam dúvidas, ela conhece o desdém que faz escapar pelos dedos o tempo e, pelos olhos, o sincero bem-querer. Depois de expostas as verdades, qualquer marca vira cicatriz.
Ficam também as promessas, mas são desculpas de enganar o amanhã; essas alongam os dias sem lhes conceder a tranquilidade que carecem.  E num repente se vão, deixando do outro lado um espaço vago, onde perfeitamente se encaixa essa fadiga que prefere encobrir as marcas da dor num inteiriço silêncio. É que depois de tanta espera vã, sossego já não é o abraço da chegada, mas a certeza de poemas miúdos que conjugam solidão.

O verso vai.
Os versos vão.
Caminho. Vou.
Caminhos vãos.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Canção esquecida

Acordei com aqueles versos decorando as paredes da memória. Nítidos, chegaram bem antes do primeiro raio de sol. Portanto, densos, quase arrastados. Às vezes a madrugada conta alguns segredos aos que são suficientemente desatentos ao mundo. Não que seja confiável ou infalível, mas inspira a enxergar a vida pelo lado de dentro, alguma referência possível nessa floresta sem bússola.
Entre as vozes que ainda chamam, as que já desistiram do nome e as que nem sequer existem mais. Entre sinfonia e silêncio, a madrugada me roubou o sono para lembrar uma quase-canção.

Todo mundo
Um mundo à parte
Já não cabe em parte alguma
Parte de mim também quer partir
Uma metade só.

Sem melodia, as palavras chegariam sozinhas, não fossem as dúvidas que puxavam-nas pelas mãos. Depois desse dia longo, por um lado silente, por outro tão cheio de expressão, faço perguntas num sopro, temendo acordar todos os assombros. Acaricio lentamente os que permanecem dormentes e rogo respostas ao tempo. Se palavra e feições se fazem tão vivas, mesmo que ausentes, já ficaria grata se me pudesse ocultar em qualquer dessas exposições. 
Enquanto ignoro outros sons - a flauta que é doce, mas descompassada; o violino belo, triste e distante - recordo com expectativa uma canção que nunca ouvi por completo. O esquecimento que a silencia e prende ao passado como desperdício de tempo e inspiração faz pensar que talvez essa seja a trilha (sonora) da história que também não viverei.

domingo, 9 de outubro de 2011

Lugar Comum


E de repente você está imerso nos mesmos clichês que condena, acreditando que poderia encontrar um arco-íris que lhe serviria como ponte. Para longe das próprias culpas e rumo a um abrigo sem sombras. Um lugar seguro, ainda que vazio. Você, que apontava os crimes de outrem, agora amarga na boca não apenas o que lhe acusa como também o que disso resulta. Esse riso tolo, resignado, como quem tenta explicar-se ou ao menos reconhecer-se nos próprios atos e vontades. Em vão. Há mil deuses que podem perdoar-lhe, dentre todas as razões que invocar, mas não há tempo para recuperar as perdas. Nem haverá.

Foram muitas despedidas para tão poucos encontros. Soa vaga e imatura essa esperança de que o tempo possa resolver tudo. Ora, são homens, não ampulhetas, que fazem a história. Como se o futuro, por si só, tivesse o poder de reparar os danos ou fazer as escolhas que nos cabem. Não tem. Ao contrário, o passar da vida tende a reduzir a coragem com que enfrentamos o súbito que desorganiza nossas previsões. Daí que toda distância nos seja útil. Vai deturpar imagens, mitigar desejos e amarelar as páginas das histórias que causam medo.