Todas as palavras ditas existem para sempre. Olhares e gestos também, mas de um modo diferente. Uma vez palavra, seja som ou poesia, existem (e resistem) em gerúndio, repetindo-se insana e palidamente. Não respeitam nossas fugas, as novas rotas, a transitoriedade, o esquecimento.
Ao mesmo tempo delatoras e vítimas, chovem a fragilidade que, num segundo, permitimos que voasse para além do controle. Ainda que joguemos fora os registros e escondamos a memória no entulho do inconsciente, dito é estado imutável, preso no tempo.
No céu da boca estariam seguras, brilhando ingenuidade obtusa ou esperanças vãs. Porém, ditas, tornam-se borboletas atordoadas pelos próprios ecos, que procuram, sem sucesso, sair da caverna. É sempre assim: parecia jardim. Parecia céu. Era caverna, uma gruta úmida de desventuras e despropósitos.
Perdeu-se no espaço. Perdeu-me no tempo. Não pediu minhas palavras, nem tampouco as devolveu. Delas roubou o vento, mister para qualquer verbo. Passivas, voam em círculos com o esforço das próprias asas, tendo no dito seu único alimento. Elas que nasceram fortes, dizendo de amor e outras complexidades, agora se repetem sem nenhum entusiasmo, negando-se, rindo de si mesmas, preferindo, desde quando tocaram os dentes, ter permanecido pensamento, olhar ou lágrima muda.
Agora distante, já digo sorrisos e uma poesia tranquila, jazigo de agonias findas e mentiras de anteontem. Mas as palavras, ainda que vazias, continuam ditas, tangíveis e corpóreas. Eu, contraditória como as palavras das quais me condeno, não desisto de dizer e lançar na eternidade todo o efêmero que há em mim.
muito bom ler gente que escreve bem hein
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