Todas as palavras ditas existem para sempre. Olhares e gestos também, mas de um modo diferente. Uma vez palavra, seja som ou poesia, existem (e resistem) em gerúndio, repetindo-se insana e palidamente. Não respeitam nossas fugas, as novas rotas, a transitoriedade, o esquecimento.
Ao mesmo tempo delatoras e vítimas, chovem a fragilidade que, num segundo, permitimos que voasse para além do controle. Ainda que joguemos fora os registros e escondamos a memória no entulho do inconsciente, dito é estado imutável, preso no tempo.
No céu da boca estariam seguras, brilhando ingenuidade obtusa ou esperanças vãs. Porém, ditas, tornam-se borboletas atordoadas pelos próprios ecos, que procuram, sem sucesso, sair da caverna. É sempre assim: parecia jardim. Parecia céu. Era caverna, uma gruta úmida de desventuras e despropósitos.
Perdeu-se no espaço. Perdeu-me no tempo. Não pediu minhas palavras, nem tampouco as devolveu. Delas roubou o vento, mister para qualquer verbo. Passivas, voam em círculos com o esforço das próprias asas, tendo no dito seu único alimento. Elas que nasceram fortes, dizendo de amor e outras complexidades, agora se repetem sem nenhum entusiasmo, negando-se, rindo de si mesmas, preferindo, desde quando tocaram os dentes, ter permanecido pensamento, olhar ou lágrima muda.
Agora distante, já digo sorrisos e uma poesia tranquila, jazigo de agonias findas e mentiras de anteontem. Mas as palavras, ainda que vazias, continuam ditas, tangíveis e corpóreas. Eu, contraditória como as palavras das quais me condeno, não desisto de dizer e lançar na eternidade todo o efêmero que há em mim.
...Aí, de pirraça, cresci usando lentes que eu mesma inventei. Até hoje, são elas que me ajudam com esse problema de enxergar demais.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
...
Feito Orides, não sabe do barco
Feito Bethânia, cantando Ana, não sabe do mar
Ou sequer do naufrágio
No qual afunda frágil
Como não sabia ser.
Feito Bethânia, cantando Ana, não sabe do mar
Ou sequer do naufrágio
No qual afunda frágil
Como não sabia ser.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Serenata
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