quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

palavras soltas

Sem fotos novas que estampem um riso ao ponto de encolher os olhos e suas tristezas, ela escreve cartas, tratados: "Fica acordado assim e assado", enquanto dorme o sono dopado do remédio que já não sabe da dor. Depois observa de longe os beijos de beija-flor e deixa que a felicidade alheia trinque o vidro de suas janelas. Atravessando as cortinas, vem um brilho efusivo e de tal modo contrastante com as coisas de dentro, que sobra-lhe apenas praguejar qualquer palavra que assuste e mande embora a piada, o amor, o sol, ou o que quer que faça as pessoas tão alegres.
Doutro lado enxerga a noite, também alheia, da agonia de alguém que sofre uma ausência, que luta contra uma perda. Quer gritar sua presença, acenar como quem mendiga a atenção do garçom. Mas não adiantaria. Já sabe que não. Cala-se, então, e roga à estrada. Pede que lhe roube de madrugada pra qualquer lugar onde não haja portas entreabertas - elas ressaltam sua culpa e desatenção ou pouca habilidade com a vida. Esconde-se. Não do que lhe é externo, pois ali nem há quem se importe. Mas das dores de dentro, do frio ruim, das queixas. E fim.

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