Já do lado de fora, mirando um instante o portão, no rosto correram as primeiras gotas, de modo que virou-se rapidamente e esticou o passo. Andando, permanecia a surpresa, pois até ali não havia sinal de chuva. Ao contrário, o céu tinha qualquer coisa de irônico naquele jeito de desmentir tempestade. Permanecia, ainda, cheio de luz, belo como são as ilusões. Teria pensado em ficar, em questionar a força do vento, não fosse a experiência de que certos temporais não se atrasam e muito se vingam dos despercebidos ou corajosos demais.
Dessa vez, ao sinal dos primeiros ventos, entendeu que haveria de seguir; atrás de si, deixar que o tempo levasse os personagens que construiu, a vida reinventada que desenhou nas paredes, as canções que ruiriam com o telhado levadas junto com portas e toda essa metáfora.
Quando ainda tentava encontrar abrigo, imaginou-se distante e o que restaria de tudo:
Nem digital no espelho,Consigo ficaria apenas esse vento bruto feito de silêncios, um aliado curioso, que, tirano, mas preciso, sempre lhe lembrava dos danos maiores, que o tempo de sorrisos é um instante e, de resto, é tudo reconstrução.
nem fio de cabelo nem pia
Nem mesmo gosto de beijo
ou de despedida
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