domingo, 4 de abril de 2010

Temporal

Antes que se esquecesse das árvores derrubadas, do corpo molhado, do frio, sentiu a chegada dos ventos, olhou pro relógio, pegou a pequena mala que escondia atrás da porta e partiu: pontualmente, disse quase triste.
Já do lado de fora, mirando um instante o portão, no rosto correram as primeiras gotas, de modo que virou-se rapidamente e esticou o passo. Andando, permanecia a surpresa, pois até ali não havia sinal de chuva. Ao contrário, o céu tinha qualquer coisa de irônico naquele jeito de desmentir tempestade. Permanecia, ainda, cheio de luz, belo como são as ilusões. Teria pensado em ficar, em questionar a força do vento, não fosse a experiência de que certos temporais não se atrasam e muito se vingam dos despercebidos ou corajosos demais.
Dessa vez, ao sinal dos primeiros ventos, entendeu que haveria de seguir; atrás de si, deixar que o tempo levasse os personagens que construiu, a vida reinventada que desenhou nas paredes, as canções que ruiriam com o telhado levadas junto com portas e toda essa metáfora.
Quando ainda tentava encontrar abrigo, imaginou-se distante e o que restaria de tudo:
Nem digital no espelho,
nem fio de cabelo nem pia
Nem mesmo gosto de beijo
ou de despedida
Consigo ficaria apenas esse vento bruto feito de silêncios, um aliado curioso, que, tirano, mas preciso, sempre lhe lembrava dos danos maiores, que o tempo de sorrisos é um instante e, de resto, é tudo reconstrução.

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