segunda-feira, 31 de maio de 2010

Telefonema*


Alô? Aloô? Marília, é você? Eu sei que sim. Ninguém silencia tão bem quanto você, que sabe onde mora o vazio das palavras. Aliás, você sabe bem onde buscar a escassez de qualquer coisa: sentido, luz, encanto, sentimento. É você, não é? Pode dizer. Diz com essa boca de bruma, essa boca de, ah nem sei mais o que tô falando.
Por que você ligou, afinal? Ah, Marília. Se você não diz nada, pra quê o esforço de me resgatar desse pedaço de lembrança? Não vê que é arriscado demais atravessar esse oceano no fio do telefone? Você pode cair. E me afogar.
Sabe o que eu penso, Marília, sabe? Que você envergonhou a si mesma de um jeito que nem suas palavras lhe concedem abrigo. Esvaiu-se, em vergonha, todo seu argumento e as lágrimas de plástico duro. Fugiram de você. Aprenderam contigo. Você sempre soube fugir tão bem.
Os seus pés são de partida. Suas canções são de sem fim. Ah, Marília. Por que você nunca calcula os danos? Não enxerga além do instante em que tudo se resume a um sopro divino, quando nos descobrimos barro, correnteza, ventania. Para sorver o mundo, Marília, você fica tão pequena. E eu te vejo grande com esses meus olhos de pretérito.
Que há contigo que nunca consegue sustentar as próprias pernas ou decisões? Ah, Marília... Que é isso que você faz de sempre se resgatar em mim?
Marília? Alô?
tututuuuu....

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*Hoje, indo pra casa, caminhei uns minutos atrás de um rapaz desconhecido que atendeu o celular com a convicção de que, do lado mudo da linha, estava Marília. No tom de voz, com certa raiva, ele tentava esconder o afeto, tarefa que (a suposta) Marília transferia ao anonimato silente. O resto é por minha conta mesmo.

2 comentários:

  1. Lindo, lindo, este texto! Fazer poesia de um acontecimento assim, assistido ao acaso, aparentemente tão sem importância (para um telespectador desatento da vida)...

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  2. Adorei esse! Denso (e tenso).

    Vinícius,
    Abraço

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