segunda-feira, 27 de junho de 2011

As pessoas e o que elas não sabem

 Criam sonhos e deles se alimentam na falta de outros insumos. Inventam mundos para viver sempre que os já existentes não lhes servem mais. Quando não cabem na vida todos seus intentos, alargam a órbita. Idealizam, projetam e realizam tanto. Do desejo de velocidade, a roda; do anseio de pássaro, a asa; da inquietude frente ao desconhecido, respostas sagradas, duendes, ETs ou fadas; dos anseios para além do pacto social, as leis. O pecado para a falta de limites e a redenção para que reste esperança. Elas sabem se adequar. Sabem mentir e pedir perdão sempre que convém;  construir e destruir, imaginar continuamente um desejo novo para que não pare de girar essa roleta de ideologias, vontades e consumo. Algumas sabem até quando é hora de esquecer, deixar para nunca mais. Quando, enfim, cansadas de tentativas, percebem ser hora de desistir, levantam bandeira branca pra si mesmas. Os estilhaços que sobram levam consigo, colados ao corpo refeito. Elas sabem regressar e encaixar-se novamente ao conforto das antigas fantasias, aquecidas por lembranças e ecos. E dizem que dali não sairão, que não mais hão de ter sonhos inatingíveis ou dúvidas. Mas isso, isso elas nunca conseguem. As pessoas não sabem calar por dentro.

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