Ao chegar em casa, foi direto para o quarto, na intenção de despir-se das dúvidas. Abriu o guarda-roupas e constatou: era uma mulher velha. Responsável como os terminhos e burocrática como as calças de costura reta - pensou. Sua sobriedade, delineada em tons pasteis e tecidos duros, pesou-lhe o semblante. Conferiu no espelho do banheiro, mas nele não pôde ver as rugas que se amontoavam do lado de dentro. O que, aliás, justificava os olhares incisivos que recebera pouco antes e os assovios ao passar pela primeira vez com as pernas nuas pela rua em que morava havia quase 2 anos.
No meio do expediente, um colega de trabalho, distraído como Marília nunca se permitiria estar, ao levar uma jarra de suco, tropeçou nas próprias pernas e atirou sobre ela todo o conteúdo do recipiente, que tingiu de vermelho a calça de linho e de ira os modos da sempre tão calma contadora. "Não vê por onde anda?" foi o máximo que conseguiu exprimir da profunda revolta que lhe atingiu. Guardou para si aquela raiva, que, junto a outras emoções, transformaria em lágrimas numa sala de cinema, seu ritual solitário das noites de sexta-feira.
Minutos depois do incidente haveria uma reunião importante. Como poderia aparecer daquele jeito perante os donos da empresa? Por certo a demitiriam, acreditava ela, para quem formalidade e eficiência pareciam ser exatamente a mesma coisa. Num pequeno percurso repetido várias vezes em volta de si mesma, tentou encontrar solução, mas só pôde ver mesmo a expressão de piedade dos que acompanhavam a cena.
A secretária da empresa tinha medidas parecidas e uma oferta de ajuda. "Tenho aqui uma saia extra. Ia com ela para uma festa depois do trabalho, mas se quiser pode usar". Marília nunca usava saias. Nem vestidos. Nem bermudas. A jovem que tinha por hábito quase inconsciente cobrir-se por inteiro não teve opção senão aceitar a peça da colega. Já atrasadas, Marília e a secretária entraram na sala de reuniões onde já estavam os demais funcionários e diretores. Ninguém deixou de notar as desconhecidas pernas de Marília. O presidente, aliás, precisou esperar que as jovens terminassem o trajeto até as cadeiras vagas para que então conseguisse voltar ao discurso inicial. Durante a reunião ficaram bem quietas Marília, suas pernas e os olhares dos colegas. Talvez não tenha ocorrido o mesmo com os pensamentos. Nem ao menos os dela, que procurava entender aquela sensação.
Já em casa, tentou enxergar-se inteira no pequeno espelho do banheiro. Procurava, ainda, compreender os olhares, repetia para si mesma as palavras de uns e outros que ouvira durante o caminho de volta para casa. Sorriu quando lembrou de um lugar em que seria possível ver-se por completo. Correu para a cozinha e, junto ao reflexo amarelo, fazendo caras e bocas diante da geladeira, Marília gostou de ser bela.
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