quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Enigma

L'enigma del desiderio: Mia Madre, 1929, Salvador Dalí.

Não se apresse em dizer o que sente. Não se contente em nunca dizer. Não se esquive nem precipite. Espere que o tempo te puxe pela mão e a vida se encarregue de esclarecer o que geralmente somos tão rápidos em definir e errar.  É raro perceber algo que não se enquadre facilmente nos conceitos que construímos acerca dos sentimentos; alguém que não caiba em verbetes de duas linhas e tantas certezas. Mas é frequente negar, deduzir, reduzir e ir embora. Dessa vez deixe as rédeas, dessa vez deixe que os olhos e os abraços falem mais que poemas pré-moldados, enfraqueça as regras, esqueça essa necessidade de saber e controlar.
Nesse caminho em que muitos virão a passeio, desavisados da árdua e doce jornada, deixe-se percorrer, sem tentar compreender nada. Ir e vir. Surpreender, rir, desistir e voltar. Não bloqueie o acesso às verdades, ao que há de insólito do lado de dentro. E daí se ninguém se importar? Ao menos terá visto o que há de intenso nisso que chamam viver.
Já não quero mais respostas e justificativas, permanecer estagne, ou, como diz o poeta, "quem não vai porque tem medo de sofrer". Eu quero é que haja sempre uma pergunta nova, um anseio para seguir sem precisar decifrar. Quiçá, um dia toda a lógica se revele num detalhe despercebido e incólume por onde passar.


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