terça-feira, 25 de outubro de 2011

Canção esquecida

Acordei com aqueles versos decorando as paredes da memória. Nítidos, chegaram bem antes do primeiro raio de sol. Portanto, densos, quase arrastados. Às vezes a madrugada conta alguns segredos aos que são suficientemente desatentos ao mundo. Não que seja confiável ou infalível, mas inspira a enxergar a vida pelo lado de dentro, alguma referência possível nessa floresta sem bússola.
Entre as vozes que ainda chamam, as que já desistiram do nome e as que nem sequer existem mais. Entre sinfonia e silêncio, a madrugada me roubou o sono para lembrar uma quase-canção.

Todo mundo
Um mundo à parte
Já não cabe em parte alguma
Parte de mim também quer partir
Uma metade só.

Sem melodia, as palavras chegariam sozinhas, não fossem as dúvidas que puxavam-nas pelas mãos. Depois desse dia longo, por um lado silente, por outro tão cheio de expressão, faço perguntas num sopro, temendo acordar todos os assombros. Acaricio lentamente os que permanecem dormentes e rogo respostas ao tempo. Se palavra e feições se fazem tão vivas, mesmo que ausentes, já ficaria grata se me pudesse ocultar em qualquer dessas exposições. 
Enquanto ignoro outros sons - a flauta que é doce, mas descompassada; o violino belo, triste e distante - recordo com expectativa uma canção que nunca ouvi por completo. O esquecimento que a silencia e prende ao passado como desperdício de tempo e inspiração faz pensar que talvez essa seja a trilha (sonora) da história que também não viverei.

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