quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Em vão


Às vezes é preciso voar para enfim perceber que a caminhada não vale o cansaço. Tirar os pés do chão, aposentar a razão, elevar às nuvens a mente e desobedecer as ordens do tempo tem jeito de encanto, mas pode também revelar armadilhas bem preparadas. O descompasso do rio, feito de intermitências, rasuras, profundidades e o engano das palavras. Poesia é sentimento, mas sentimento não é só poesia. Entre o que se diz e o que se sente há um abismo, o mesmo vão presente nas coisas distintas que fingem ser uma só.
E aí é preciso também conversar com a tristeza, que tem o olhar treinado para enxergar na escuridão. Para além de sorrisos e afagos que falseiam dúvidas, ela conhece o desdém que faz escapar pelos dedos o tempo e, pelos olhos, o sincero bem-querer. Depois de expostas as verdades, qualquer marca vira cicatriz.
Ficam também as promessas, mas são desculpas de enganar o amanhã; essas alongam os dias sem lhes conceder a tranquilidade que carecem.  E num repente se vão, deixando do outro lado um espaço vago, onde perfeitamente se encaixa essa fadiga que prefere encobrir as marcas da dor num inteiriço silêncio. É que depois de tanta espera vã, sossego já não é o abraço da chegada, mas a certeza de poemas miúdos que conjugam solidão.

O verso vai.
Os versos vão.
Caminho. Vou.
Caminhos vãos.

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