_ Eu não entendo você.
_ Responde. Antes de atravessar a rua, você olha para os dois lados?
_ O que tem isso a ver?
_ Olha, não olha?
Ele, já impaciente, sentia vontade de desistir. Marília tinha sempre aquela expressão deserta e a fala que lhe soava incerta. Mas precisava, enfim, de uma resposta para aquela história que há muito o incomodava.
_ Olho sim. E daí, o que tem a ver? Eu acabo de dizer tanto, te confesso sentimentos engasgados e tudo que você fala é isso? Eu olho sim para os dois lados! O que...
Delicadamente, a moça tocou-lhe a face com o dorso da mão e assim paralisou as palavras. Sem que pudesse controlar a reação, ele fechou os olhos e recebeu aquele carinho como se fora uma força mágica capaz de garantir a eternidade. Demorou cerca de dez segundos até que ela cessasse o afago e passasse a apenas observá-lo. Ele manteve os olhos cerrados por mais um pequeno instante. E foi como se acordasse de um longo sono encantado, quando abriu os olhos e percebeu que Marília o encarava com a mesma expressão de sempre.
Depois de dizer, Marília esboçou um sorriso que tinha em si algo de muito triste. Virou as costas e caminhou passos tranquilos afastando-se dele, que permaneceu parado. Olhava nessa perspectiva de quem fica. E parecia impossível compreender. A menina andava torta, pendendo na sua vagarosa indecisão entre a sombra ou o lado mais bonito da estrada. Ele ainda observava de longe, quando ela atravessou a rua sem olhar para lado nenhum.
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