quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Do altar em pedaços desceu uma santa

Deus, então, atendeu suas preces. Em meio à homilia, num raio rompeu o local consagrado e, do altar em pedaços, desceu uma santa. Ela habitou entre os homens com hábitos de estátua, intacta em seus tantos dogmas, como se fora aço o que carregava entre as vestes e gesso ainda tivesse em vez de sangue.
A santa dos gestos de mármore andava coesa e serena, seus passos de divindade. Mas no semblante - mal sabia - já trazia mil faces. Havia quem lhe enxergasse acalanto e quem nesses mesmos olhos previsse desastres. Se antes a santa vestia seu manto e tinha por sina operar milagres, qual não foi o espanto quando se viu entre humanos embates.
Assim, descobriu que, fora do altar, sua missão era outra. Era contradição. Já não carregaria seu fardo de bondade. Suntuosa, seria mulher. Uma nova vida, ainda não desenhada; um destino incerto, de virtudes e pecados. Sorriu, feliz, sem nem perceber que é mais fácil ser santa que ser mulher.
Toda santa é canônica e jamais duvida do que quer. Do alto imóvel da santidade, não se ressentem dos próprios rastros nem precisam dosar na vida uma medida exata de maldade. Mas aí já era tarde. Não que algo a impedisse de voltar a ser celeste, mas, sendo mulher por um dia, jamais caberia novamente naquele altar ausente de vontade.

sábado, 24 de dezembro de 2011

As flores que ganhei...

As flores que ganhei pesariam o percurso e talvez as decisões. Levei para casa apenas o cartão sem nome, onde qualquer outra pessoa poderia ler minha insensatez. Mas sempre tive essa habilidade de optar pelo pior. Feito Clarice, sinto inexplicável apreço por tudo que se arrasta desajeitadamente e, pontiagudo, fere querendo afagar. Nos poemas que leio, vejo-me pálida e castanha; parte apagada da viagem, uma miragem que ganha vida para repetidas vezes morrer. A quanta sinceridade pode um encanto resistir, eu não sei. Tampouco se tudo isso é disfarce, já que ainda lembro da silenciosa intensidade. Por hora, quero alguém que me abrace sem alertas e repetições. Quero ir embora em qualquer desses vagões, marcar um café para as três da tarde e me esquecer que já é fim de dezembro. Talvez ainda haja tempo de salvar as rosas e nelas descobrir tranquilidade.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Os lados

_ Eu não entendo você.
_ Responde. Antes de atravessar a rua, você olha para os dois lados?
_ O que tem isso a ver?
_ Olha, não olha?

Ele, já impaciente, sentia vontade de desistir. Marília tinha sempre aquela expressão deserta e a fala que lhe soava incerta. Mas precisava, enfim, de uma resposta para aquela história que há muito o incomodava.

_ Olho sim. E daí, o que tem a ver? Eu acabo de dizer tanto, te confesso sentimentos engasgados e tudo que você fala é isso? Eu olho sim para os dois lados! O que...

Delicadamente, a moça tocou-lhe a face com o dorso da mão e assim paralisou as palavras. Sem que pudesse controlar a reação, ele fechou os olhos e recebeu aquele carinho como se fora uma força mágica capaz de garantir a eternidade. Demorou cerca de dez segundos até que ela cessasse o afago e passasse a apenas observá-lo. Ele manteve os olhos cerrados por mais um pequeno instante. E foi como se acordasse de um longo sono encantado, quando abriu os olhos e percebeu que Marília o encarava com a mesma expressão de sempre.

 _ Pois, então, faça-o também ao cruzar as vidas que se avizinham a sua. O perigo pode ser bem maior.

Depois de dizer, Marília esboçou um sorriso que tinha em si algo de muito triste. Virou as costas e caminhou passos tranquilos afastando-se dele, que permaneceu parado. Olhava nessa perspectiva de quem fica. E parecia impossível compreender. A menina andava torta, pendendo na sua vagarosa indecisão entre a sombra ou o lado mais bonito da estrada. Ele ainda observava de longe, quando ela atravessou a rua sem olhar para lado nenhum.